O Académico de Viseu continua a fazer história na Liga. A vitória diante do Rio Ave, no Fontelo, permitiu aos Viriatos alcançar o sexto triunfo consecutivo no campeonato, prolongando uma sequência inédita no principal escalão do futebol português e elevando para 20 os pontos conquistados nas primeiras dez jornadas. Mas, desta vez, foi preciso o grupo mostrar carácter, reagir a uma desvantagem e superar uma entrada menos conseguida. Na análise ao encontro, Bruno Pinheiro reconheceu as dificuldades, sobretudo na primeira meia hora, e valorizou a capacidade de resposta dos jogadores, destacando a importância de saber vencer mesmo quando a qualidade exibicional fica aquém do habitual. O treinador admitiu que a sequência de seis vitórias supera expectativas, atribuiu parte das dificuldades ao desgaste físico e mental acumulado nos compromissos com Sporting e FC Porto e sublinhou a importância das alterações realizadas durante o encontro. Sem esconder a satisfação pelo momento histórico, rejeitou qualquer deslumbramento, elogiou a humildade do grupo e assumiu que o objetivo passa agora por procurar a sétima vitória consecutiva.
Qual é o impacto desta vitória, depois da equipa começar a perder?
Honestamente, acho que é muito bom ganhar dando a reviravolta ao jogo. Já tínhamos perdido quando não fomos capazes de dar a volta, e nas vitórias anteriores nunca estivemos numa situação de desvantagem. Ganhar numa situação de desvantagem é algo motivador, que galvaniza, que dá confiança. É excelente nesse sentido. Diria também que ganhar um jogo em que não fomos tão convincentes, como temos vindo a ser, tem igualmente um sabor especial porque, de facto, nem sempre vamos jogar bem; e é importante, mesmo não jogando bem, acabar por ganhar jogos. Hoje ganhamos e fico feliz por isso, mesmo não tendo feito o jogo que gostaríamos de ter feito. É importante ganhar jogos mesmo quando não... não se joga bem.
Qual foi o racional das três substituições realizadas na segunda parte?; e, depois de referir várias vezes que esta temporada no Académico era o maior desafio da sua carreira, qual é a análise que faz deste momento da equipa, que chega à sexta vitória consecutiva. Estava à espera?
Começo pela segunda pergunta. Nós temos sempre a esperança de fazer bons trabalhos e queremos sempre muito ganhar. Agora, honestamente, esta sequência de vitórias não é qualquer equipa que consegue. Normalmente está ao nível dos grandes. Como tal, nesse sentido, surpreende de facto. Se calhar também gostava de ter ganho mais pontos nas primeiras quatro jornadas e não conseguimos; se calhar poderíamos ter feito melhor com o Santa Clara ou como o Marítimo. E não conseguimos. Agora a sequência de seis jogos a ganhar é algo muito grandioso para uma equipa do nível do Académico de Viseu. Portanto, estamos muito felizes por isso. Temos a ambição de ir procurar a sétima e neste momento o foco já está em procurar a sétima. É isso mesmo. Obviamente estou muito agradado e não contava com esta série de seis vitórias.
Quanto à primeira questão que fez, acho que faltou energia à equipa. Que não se justifica com os últimos jogos, porque houve uma gestão dos jogadores. Desta equipa que entrou hoje, apenas o Nicos o Messeguem foram os jogadores que jogaram na quarta-feira. Portanto, não se justifica esta entrada da equipa. Acho que a equipa tem consciência que fez uma entrada em falso. Não tenho explicação a não ser que, de facto, foi uma semana de trabalho muito intenso, muita viagem... tivemos cinco dias fora de casa... muito desgaste físico e mental porque eram jogos no Dragão e Alvalade. São jogos de uma exigência mesmo muito, muito grande. É a única justificação que encontro para isso. As substituições foram mesmo para dar mais energia, nomeadamente a do Gambor pelo Anthony, porque não estávamos a conseguir ser agressivos e para ser agressivos precisávamos que o Robinho empurrasse o Moreno, para o Moreno saltar nos centrais. O Kahraman, não que fosse pela parte física, estava a errar muitos passes para o que é habitual nele. E o João Guilherme não estava a ter impacto no jogo e o gohi acabou por ter esse mesmo impacto. Portanto, as substituições principalmente vieram para dar mais capacidade de pressão à equipa. Já aqui fiz um jogo com duas substituições na linha defensiva, em que ficou tudo admirado, porque precisávamos de marcar, mas a verdade é que eu entendo que se não há equilíbrio atrás, se não estamos fortes atrás, não podemos ser fortes à frente. A partir do momento em que nos tornamos mais agressivos e começamos a recuperar bolas mais altas, como foi o caso do primeiro golo, a equipa ganhou uma confiança diferente e passou a jogar muito mais com bola. E acho que foi uma bola de neve, honestamente.
Será que o Académico agora passa a ser encarado pelos adversários de outra forma, diferente daquilo que era o início da época?
Acho que é normal haver uns reajustes. Às vezes, nós analisamos as equipas e depois chegamos ao campo e o jogo não é nada daquilo que preparamos. Por exemplo, o Rio Ave costuma jogar num 4-4-2, como fez hoje, mas estávamos à espera que o Diogo Nascimento dividisse muito entre a marcação ao Kahraman e ao Luís Silva. E a verdade é que tal não... não aconteceu. Portanto, acabaram por ser só os dois avançados, através de movimentos em diagonal, a tentar controlar o Luís Silva. Não houve essa dinâmica habitual, diria eu, no Rio Ave, contra equipas que jogam em 4-3-3. O Porto mudou claramente para homem a homem contra nós. É normal que isso aconteça. Vamos ter que nos adaptar, vamos ter que identificar e adaptar durante o jogo. Os jogadores começam cada vez mais a interpretar melhor essas situações. Vamos encarar o futuro com confiança; e também pensar que quando os adversários alteram muita coisa, também pode ser que não seja muito benéfico para eles, porque saem dos padrões deles. Portanto, pode até ser algo vantajoso para nós.
10 jornadas, 6 vitórias e 20 pontos... a primeira meia hora de jogo hoje foi uma chamada à terra da equipa do Académico de Viseu, lembrando que qualquer deslumbramento poderá ser fatal?
Eu acho que sim. Ao intervalo foi exatamente isso que eu disse aos jogadores. Concordo consigo, pode ter sido um deslumbramento. Mas eu acredito honestamente que este grupo não se deslumbra... e se o fez hoje, tenho a certeza que no sábado vão dar uma boa resposta e não vai acontecer. Acho que é um grupo humilde, que tem noção das coisas. Acredito mais na fadiga mental, que é mais difícil de recuperar do que a fadiga física. Um jogador está cansado, dorme 10 a 12 horas, recupera; quando a fadiga mental se instala – e eu sei que para a maioria das pessoas isto é um jogo, mas tem uma exigência mental muito grande –, o ganhar muitas vezes seguidas também cansa. O segredo é mesmo trabalhar de maneiras que não cansem, fazer disto um jogo em que tenham prazer, para que se foquem mais no processo do que no resultado, e os resultados serem uma consequência. Se foi um deslumbramento, acredito que no próximo fim de semana não vá acontecer.
Se este deslumbramento está controlado, também pode haver o contrário. Os adeptos estão confiantes, temos adeptos no estádio, a equipa também parece mostrar que é capaz de continuar a ganhar?
Eu fico feliz se conseguir fazer mais seis vitórias seguidas [risos]. Vamos seis a seis. Não... Mas se houver deslumbramento nas bancadas, até fico feliz com isso... é normal que as pessoas nos cobrem quando não estivermos tão bem, porque estamos a habituá-los a esta dinâmica de vitórias. É natural esse deslumbramento dos adeptos. Os adeptos vivem da euforia do momento e nós queremos que eles tenham essa euforia. Do nosso lado, os jogadores e a equipa técnica, temos que ter uma gestão diferente das emoções. Acho que o grupo é consciente, a equipa técnica é consciente, do que é preciso trabalhar para se ganhar jogos. É difícil, apesar de parecer que é fácil, pela sequência de resultados. A verdade é que quase todos os jogos foram ganhos... pela margem mínima. Ganhámos três jogos no Fontelo, todos muito difíceis de ganhar. Portanto, temos essa consciência.
Até que ponto é que é importante ir introduzindo nuances no próprio jogo no sentido de não tornar o jogo previsível para as outras equipas?
Eu sei o que me está a dizer, mas olhe... o Porto é das equipas mais fáceis de analisar. Toda a gente sabe o que vão fazer, mas é extremamente difícil contrariar. A ideia de jogo é baseada em compreensão de espaços; se a compreensão for bem feita, o adversário poderá apresentar-se forte, obviamente, mas se tivermos qualidade técnica e compreensão do jogo, será sempre difícil de nos contrariar. Obviamente poderá haver algumas nuances, mas muitas dessas nuances às vezes aparecem pela qualidade individual dos jogadores. Hoje a troca do Mestanza pelo Kahraman traz coisas diferentes, é um jogador mais agressivo... o João Guilherme é bom nas transições, hoje não lhe estava a sair, o Gohi entrou e fez o que fez. Portanto, muitas vezes será também a qualidade individual, a capacidade de usar as armas que os jogadores têm, a criar essas nuances no jogo e tornar o jogo um bocado diferente.