Casa cheia, ambiente que fez lembrar outros palcos e um Académico à altura do momento. No Estádio do Fontelo, viveu-se a melhor moldura humana da época — e também uma das derrotas mais difíceis de engolir. Não só pelo resultado em si, mas por tudo o que o jogo contou… e, sobretudo, pelo que deixou por contar.
O Académico entrou com tudo. Assumiu o jogo, tomou conta das operações e empurrou o adversário para trás com uma intensidade constante. Houve identidade, houve coragem e houve, acima de tudo, uma equipa decidida a honrar o apoio vindo das bancadas.
O resultado, esse, nunca acompanhou o que se viu em campo. O futebol, por vezes, tem destas ironias cruéis. À primeira oportunidade relevante, o Felgueiras encontrou um penálti e colocou-se em vantagem. Um lance validado após intervenção do VAR, com Fábio Veríssimo a apontar para os onze metros. Mario Rivas marcou. Os Viriatos insistiam, mas o empate não chegava. Muito por culpa de uma exibição de enorme nível de Mateus Pasinato. O guardião do Felgueiras foi, sem margem para discussão, o melhor em campo — e isso explica quase tudo. Foram várias defesas de grau de dificuldade elevado, duas delas a negar golos praticamente cantados a Luís Silva e a Gohi. O Académico criou, rematou, insistiu… e encontrou sempre uma resposta do outro lado.
A equipa viseense não quebrou em momento algum. Manteve a pressão, continuou a acreditar e foi sempre à procura de inverter o rumo dos acontecimentos, mesmo quando o jogo começou a tornar-se cada vez mais fragmentado.
E aqui entra um dos pontos que mais condicionou o espetáculo: a forma como o encontro foi sendo gerido. De forma reiterada, foi-se permitindo que o tempo útil se esvaísse. O Felgueiras foi retardando reposições, quebrando ritmos, promovendo paragens constantes — e encontrou sempre margem para o fazer. Uma margem fora do comum que lhe valeu, ironicamente, um único cartão amarelo em toda a partida, dado ao minuto 89 (!). Jogou-se pouco, muito pouco, para aquilo que o encontro pedia.
Num cenário destes, quem estava por cima acabou, naturalmente, prejudicado.
Ainda assim, o Académico foi procurando soluções, mesmo perante um contexto cada vez mais adverso. As duas expulsões acabaram por condicionar a abordagem na reta final, obrigando a equipa a reorganizar-se e a lutar com menos unidades, mas nunca com menos ambição.
E mesmo assim, já no período de compensação, surgiu o lance que resume a partida. Rúben Pereira é derrubado e agarrado na grande área, num momento que pareceu evidente para quem estava no estádio e, ainda mais, para quem reviu as imagens. Um possível penálti que poderia ter mudado tudo — ou, pelo menos, reposto alguma justiça no marcador. Mas nada foi assinalado. Nem decisão, nem explicação clara. Apenas o jogo a seguir… embrulhado num silêncio ensurdecedor do VAR.
Ficou a imagem de uma equipa com caráter, com raça e com uma ligação fortíssima aos seus academistas. Uma equipa que quis sempre jogar, que procurou sempre mais e que nunca deixou de acreditar, mesmo quando o jogo pouco deixou jogar ou quando as coisas, assumidamente, não saíram como era pretendido. Sim, porque também dias há em que a inspiração nos trai.
O caminho continua.
E com esta atitude, com este compromisso e com este apoio, há jogos que não se ganham no marcador… mas dizem muito sobre aquilo que uma equipa está pronta para conquistar.