Há jogos que se decidem no talento, na estratégia ou na inspiração de um momento. Outros há que mudam por causa de uma decisão difícil de explicar. O que aconteceu no Olival pertence, infelizmente, ao segundo grupo.
Durante meia hora, o Académico de Viseu foi dono e senhor do encontro. A equipa entrou sem complexos, pressionante, com bola, com personalidade e com uma ideia clara de jogo. A pressão alta obrigou o FC Porto "B" a recuar, e as ocasiões começaram a surgir junto da baliza portista. O aviso de Zamora, a insistência de Kahraman e o controlo territorial mostravam quem mandava no encontro.
O golo de André Clóvis, aos 28 minutos, foi apenas a confirmação lógica do que já se via em campo. Um gesto técnico de grande qualidade, a traduzir em números uma superioridade evidente. Até aí, só havia uma equipa a jogar à bola.
E então, 30 minutos. Altura do momento que mudou tudo.
Num lance confuso, precedido de um ressalto no peito de Domen Gril, a bola tocou no braço do guardião esloveno, num gesto praticamente instintivo. Após hesitar, o árbitro João Pinheiro apitou e decidiu mostrar cartão vermelho direto, decisão que manteve sem consulta do VAR, sem ponderação. Uma expulsão dura, desproporcionada e difícil de justificar à luz do lance descrito e dos critérios normalmente exercidos. Num jogo que até então decorria dentro da normalidade, a decisão caiu como um trovão.
A partir desse instante, o encontro partiu-se ao meio. E é impossível falar deste jogo como um todo, porque houve claramente dois jogos num só: o que se jogou 11 contra 11, e o que se jogou depois da expulsão.
No primeiro, o Académico foi superior, mais organizado, mais agressivo, mais perigoso. Não concedeu qualquer contra-ataque ao adversário. No segundo, a equipa viu-se obrigada a resistir, a adaptar-se, a correr atrás do prejuízo provocado por uma decisão externa. O empate do FC Porto "B", ainda antes do intervalo, foi o primeiro reflexo desse novo contexto.
Na segunda parte, já com vantagem numérica durante longos 60 minutos, o FC Porto "B" fez o que se exige a uma equipa nessas circunstâncias: assumiu o controlo, circulou a bola e explorou o desgaste do adversário. A ligação entre Dinis Rodrigues e Vonić acabou por ser decisiva, com dois golos bem construídos que selaram a reviravolta. Mérito portista, sem dúvida, na forma como soube jogar com mais um elemento.
Mas é impossível ignorar a origem dessa vantagem.
O Académico não caiu por incapacidade, caiu porque o jogo lhe foi virado do avesso. A expulsão de Domen Gril não só retirou o guarda-redes titular, como obrigou a equipa a uma substituição forçada, a uma reorganização imediata e a uma hora inteira em inferioridade numérica. Tudo isto num lance que nem sequer mereceu revisão com imagens, apesar da sua natureza duvidosa.
O resultado final conta a história de uma reviravolta. A partida, porém, conta outra: a de um Académico forte, personalizado e dominante enquanto o jogo foi jogado em condições de igualdade.
No Olival, houve dois jogos. E o primeiro deixou claro quem estava por cima. O segundo começou quando a arbitragem decidiu intervir — e, a partir daí, o desfecho deixou de depender apenas das equipas.