Na antevisão à receção ao FC Porto, no Estádio do Fontelo, o treinador do Académico identificou as mais-valias de uma equipa que entrou a todo o gás na Primeira Liga. Mas considera que o Académico pode surpreender, se conseguir ser solidário nas ações defensivas e perigoso nas transições ofensivas, ao ponto de provocar desconforto ao campeão nacional. Bruno Pinheiro considera que a equipa deve preocupar-se com o que pode controlar e pediu uma arbitragem sem casos. Por fim, deu os parabéns a Farioli pelo trabalho no FC Porto e assumiu que vai defrontar grandes amigos. A quem deseja infelicidade nesta partida de casa cheia no Fontelo.
Como preparou a dinâmica ofensiva da equipa para um jogo em que é esperado que o adversário tenha a bola na maior parte do tempo?
"Sabemos que o FC Porto é uma equipa extremamente agressiva defensivamente. Concordoque vai ser extremamente difícil ter posses de bola longas, porque este FC Porto é uma equipa que passa de uma defesa zonal para uma defesa homem-a-homem num estalar de dedos. Ativa um gatilho de pressão de uma forma muito rápida e transforma aquele 4-2-3-1 num homem-a-homem. O que nos obriga a ganhar duelos. Portanto, ter posse de bola vai ser difícil, eles provocam muito os duelos defensivos. Se ganharmos os duelos, aumentamos a posse de bola. Se os perdermos, garantidamente que vamos estar muito tempo sem bola."
Nos jogos frente a Santa Clara e Marítimo houve dois lances discutíveis e o mister, no fim do último jogo falou em variáveis controláveis e não controláveis. O que é possível controlar frente ao FC Porto?
"O que é possível controlar? O processo de jogo, obviamente. As arbitragens não são controláveis. Os árbitros têm o direito também a errar como nós erramos. Treinadores, jogadores… não é isso que está em causa. No último jogo, fiquei com a sensação de que a partir do 2-0, houve tendência para fechar os olhos a determinadas faltas. No próximo jogo, frente ao FC Porto, o que é importante é o que podemos controlar. Será muito importante igualar ou superar a agressividade do adversário. O FC Porto sabe que, em 90% dos jogos do nosso campeonato, é claramente superior ao adversário e utiliza isso para sufocá-lo. É uma equipa que não quer deixar o adversário respirar. Poderemos provocar situações para encontrar jogadores com menos tempo e espaço, o que ajudaria a ter soluções mais favoráveis. Ao mesmo tempo, o FC Porto vai obrigar-nos a ajustar muito rapidamente os posicionamentos. Passa muito por aí, pela capacidade de nos ajustarmos e e sermos mais rápidos do que o adversário. Não podemos jogar da mesma forma do que eles, porque o FC Porto é, além de coletivamente muito forte, também individualmente. Temos de mostrar alguma paciência defensiva e esperar os momentos certos para roubar-lhes a bola e sair em transições ofensivas que lhes provoquem desconforto. E obrigá-los a ter a noção de que correm riscos. Se não tivermos sucesso nessas transições ofensivas, não lhes provocamos desconforto e eles irão pressionar-nos mais."
Dados os últimos reforços garantidos, sente que a intervenção do Académico no mercado já está concluída? Está satisfeito com o plantel?
"Creio que tudo pode acontecer até ao último dia do mercado. Podem entrar jogadores, podem sair jogadores… Ainda é cedo para se fazer esse balanço. Vamos deixar que que se feche o mercado e depois poderá ser feito um balanço diferente."
Voltam a defrontar um grande esta época, depois do Benfica na jornada inaugural. Mas aqui, podem ser a primeira equipa a roubar pontos ao campeão nacional e a primeira também a marcar. Isto mexe com a cabeça dos jogadores?
"Já resumimos toda a dificuldade que encerra esta partida. Vamos defrontar uma equipa que ainda não sofreu golos. E que marca sempre. Trabalhamos sempre com a intenção de ganhar. Somos um grupo humilde, mas ambicioso. O FC Porto chega a este jogo depois daquela que considero a melhor exibição da época, mas creio que podemos montar uma estratégia que torne este no jogo mais difícil que o campeão nacional já enfrentou. E esperamos criar dificuldades diferentes, tal como fizemos na Luz, diante de um Benfica que também vinha do seu melhor jogo. Precisamos de fazer um jogo perfeito, que eles não tenham muita sorte e também de uma arbitragem feliz, sem casos, e que não nos penalize. Por isso, será necessário um conjunto de fatores para que seja a nossa primeira vitória, a primeira equipa a marcar ao FC Porto e a não sofrer. Mas temos sempre essa expetativa."
Tem falado recorrentemente sobre a paciência que a equipa deverá ter nos jogos. De que forma está ela a ser trabalhada para este jogo com o FC Porto?
"Acima de tudo, devemos ter noção de que vai haver muitos momentos do jogo em que vamos ter de sofrer. E vejo os jogadores preparados para isso, conhecem muito bem o adversário. Teremos de ser solidários nesses momentos e unir todas as energias possíveis. Mas devemos, também, ter a consciência de que precisamos de mostrar capacidade para, sempre que possível, jogar o que nos for possível jogar. Temos de equilibrar esses dois momentos. No último jogo, já se notou isso: nos momentos em que tivemos bola fomos mais competentes do que havíamos sido, por exemplo, frente ao Santa Clara. E defensivamente é assumir que vai haver períodos em que o FC Porto vai apertar, mas devemos ser tão competentes a defender a nossa baliza como o adversário. E esse momento do jogo até o temos trabalhado bem, relembro que o Benfica tem sido uma máquina de fazer golos e a nós só marcou dois. Já o FC Porto é uma máquina a atacar e a defender."
De que forma é que o reforço Valéry Fernández traz mais qualidade à equipa? E é positivo jogar novamente com o estádio cheio?
"Começo pela segunda pergunta porque é de resposta simples: é um fator de alegria e de satisfação ter a casa cheia no Fontelo e acredito que será maioritariamente uma casa do Académico. Pelo que me agrada bastante, fico muito contente e é fundamental sentir o apoio dos adeptos. Vai ser um campeonato difícil, vamos ter momentos difíceis e contamos sempre com o apoio deles. Mas também sabemos que devemos dar uma resposta em campo, sermos nós também a puxar pelos adeptos para que, quando isso não nos for possível, sejam eles a puxar por nós. Quanto ao Valéry, é um jogador versátil, que pode fazer diferentes posições. É extremamente competitivo, e dotado de boa qualidade técnica. Tem tempo de jogo na La Liga, que é um campeonato extremamente difícil. Pelo que, teoricamente, já vem adaptado ao estilo de futebol que queremos, além de trazer um acrescento individual quer na competitividade, quer na execução técnica das suas ações."
O mister trabalhou com vários elementos da equipa técnica do FC Porto. A quem é que este braço-de-ferro com velhos conhecidos pode trazer vantagem?
"Antes de mais, devo assumir que vou jogar contra um grande amigo meu… contra um, não, contra vários. No staff do FC Porto estão vários elementos que trabalharam diretamente comigo e outros indiretamente como é o caso do Francesco [Farioli]. Somos muito amigos e é a primeira vez que me vou sentir rival deles. Tenho a certeza de que ele vai dar o seu melhor para nos ganhar, mas deste lado também estará um treinador extremamente motivado para ganhar o jogo. Aproveito para lhe dar os parabéns pelo trabalho que tem feito, considero-o um belíssimo treinador. É uma pessoa extremamente correta, gosto muito de em termos pessoais também, somos amigos. E sempre teve muito sucesso em todos os campeonatos onde trabalhou. No último clube onde esteve antes do FC Porto, o Ajax, terá sido onde as pessoas duvidaram das capacidades dele, mas o FC Porto teve olho, porque soube ver para lá das últimas jornadas. Esse plantel do Ajax fez uma época muito acima do que era expectável… acabou por vir para Portugal, onde tem sido feliz no FC Porto e espero que assim continue. Mas este fim-de-semana desejo-lhe infelicidade no Fontelo."