Equipa Profissional 2026-03-01

Raça e ambição, sempre

Num campeonato onde cada detalhe pesa como chumbo, há jogos que não se explicam apenas pela tática, pela estatística ou pela frieza dos números. Explicam-se pela alma. E o que se viveu no Estádio do Fontelo foi, acima de tudo, uma afirmação de alma academista.

Frente ao melhor adversário da prova, o líder Marítimo, o Académico não tremeu. Não se encolheu. Não esperou. Assumiu. Desde o primeiro minuto que a equipa de Viseu quis deixar claro que a classificação não lhe pesava nos ombros — servia-lhe antes de motivação.

O duelo começou intenso, repartido, com ocasiões de parte a parte. Mas, passada a fase de estudo, percebeu-se quem queria mandar. O Académico ganhou metros, ganhou duelos, ganhou confiança. André Clóvis ameaçou, Zamora afinou o pé, o meio-campo mordeu cada lance como se fosse o último. O golo, quando surgiu, aos 40 minutos, foi o espelho dessa superioridade: passe magistral de Álvaro Zamora, execução fria de André Clóvis, explosão nas bancadas. Justiça no marcador.

E que bancadas. 5236 vozes, a melhor assistência do século em jogos de campeonato no Fontelo, transformaram o estádio num vulcão. Cada corte era celebrado como um golo. Cada recuperação, um rugido coletivo. Havia algo diferente no ar — uma crença quase palpável.

Na segunda parte, o guião manteve-se: Académico por cima, organizado, pressionante, determinado. O Marítimo, líder experiente, procurava responder. E encontrou no detalhe que tantas vezes trai os mais fortes: uma grande penalidade. O VAR confirmou, Simo converteu. 1-1. Um empate que soava a castigo excessivo para quem tanto fizera para estar na frente.

Mas esta equipa já aprendeu a lidar com a injustiça momentânea. Já sofreu demasiado para se deixar abater por um episódio. E foi aí que o destino, tantas vezes madrasto ao longo da época, decidiu equilibrar a balança. Sérgio Fonseca lançou Lorougnon Gohi. E Gohi lançou o caos controlado.

Aos 90+5’, na sequência de um lance aparentemente resolvido pela defesa insular, a bola sobrou à entrada da área. O costa-marfinense não pensou duas vezes. Pé esquerdo, seco, potente. Um foguete que rasgou a noite viseense e só parou no fundo das redes. O Fontelo explodiu. Não em surpresa — mas em libertação.

E quando o Marítimo ainda tentava perceber o que tinha acontecido, o golpe final surgiu. Contra-ataque letal, Gohi isolado, frieza no momento decisivo. 3-1. Pedra final numa exibição de raça, garra e convicção.

O resultado pode dizer três golos a um. Mas a história conta muito mais: conta uma equipa superior em quase todos os capítulos do jogo; conta um líder do campeonato encostado às cordas; conta um estádio cheio que empurrou até ao último suspiro; conta um herói que escreveu o seu nome nos descontos.

Há vitórias que valem três pontos. E há vitórias que valem afirmação. Esta foi das segundas.

O campeonato continua, a diferença pontual encurta, a luta intensifica-se. Mas uma coisa ficou clara nesta tarde em Viseu: quando o Académico joga assim — com coragem no peito e crença nos pés — não há penálti, não há líder, não há destino adverso que lhe resista.

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“Sou feliz. Confio em todos os jogadores do plantel”

Bruno Pinheiro não escondeu a satisfação pela quarta vitória consecutiva do Académico de Viseu na Liga Portugal, alcançada este sábado, frente ao Estoril (2-1), num jogo decidido nos instantes finais, com um golo de Soufiane Messeguem. O treinador destacou o carácter, a qualidade do trabalho e o ambiente vivido no balneário como fatores determinantes para o melhor arranque de sempre do clube no principal escalão. Apesar do momento histórico, manteve um discurso prudente quanto aos objetivos da temporada, sublinhando que a equipa ainda está longe de ter conquistado aquilo a que se propõe. Na análise ao encontro, Bruno Pinheiro reconheceu as dificuldades sentidas no início da segunda parte, bem como a capacidade de reação da equipa. O treinador destacou ainda as diferentes características de Kahraman e Soufiane Messeguem e antecipou uma significativa rotação do plantel nos próximos compromissos, frente ao Fátima, para a Taça de Portugal, e ao FC Porto, para a Taça da Liga. Uma decisão que justificou com a confiança que deposita em todos os jogadores. Se é um treinador feliz (pela vitória, pelo arranque na Liga e pela resposta que o grupo tem dado) Sou feliz, tenho dito sempre, pelos jogadores que tenho; já o disse aqui e volto a repetir, podemos não ter o melhor treinador do mundo, podemos não ter os melhores jogadores do mundo, mas a verdade é que este é um grupo que trabalha muito e bem, com muita alegria; dá mesmo prazer vê-los quando chegam ao estádio, vêm sempre felizes. Há sempre um ambiente fantástico entre eles e com a equipa técnica. E isso torna-nos felizes. Obviamente, os resultados ajudam imenso. Precisávamos de ganhar jogos para ganhar confiança e ter esta capacidade de jogar com bola… obviamente estou muito, muito feliz pelo grupo que tenho e pelos resultados que estamos a conseguir até ao momento. Tendo a noção que, até hoje, nada está ganho. Está uma boa parte do caminho feito, mas estamos muito longe de ter conseguido alguma coisa. A razão das dificuldades no início da segunda parte; e a reacção. Tivemos dificuldade no início da segunda parte por duas razões. Uma, porque jogamos contra um adversário que tem muita qualidade individual; a segunda razão, porque alteraram a sua estrutura, tiraram o terceiro central, fizeram subir o Tsoungui para o meio, deram liberdade ao João Carvalho, e eu não queria estar a substituir sem ter a noção exata do que é que eu queria fazer e de como queria travar o Estoril. Infelizmente, levei demasiado tempo a perceber e a proceder às substituições… Felizmente, o grupo reagiu e, a partir do momento que fizemos as primeiras substituições, a verdade é que a equipa voltou a encaixar, voltou a controlar o jogo defensivamente e, a partir daí, acho eu, voltamos a ter mais oportunidades que o adversário. Nunca vamos conseguir dominar jogos em noventa minutos, esqueçam, isso não existe no futebol. A opinião sobre a exibição de Kahraman. A maior influência do Kahraman é no último terço, é aquele jogador que pode fazer mais assistências que os seus colegas (já não digo golos, embora eu acredite que ele possa fazerr golos, porque, de facto, remata bem, pé direito, pé esquerdo, é um jogador que é muito forte no último terço). É aí que ele pode diferenciar-se. Por exemplo, o Soufiane é um trabalhador, tremendo; são jogadores completamente diferentes, o Sofi é muito forte no equilíbrio da equipa, o Kahraman é muito forte no último terço; sempre que ele se enquadra, sempre que ele consegue receber a bola virado para a baliza contrário, vai sempre sair qualquer coisa. Se está surpreendido com arranque na Liga; e como vai gerir a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Como treinador, tenho sempre esperança de que as coisas corram pelo melhor, de ganhar todos os jogos. O que sinto é que, de facto, com a idade e com a experiência, conseguimos acelerar o rendimento. O treinador nunca tem tempo, isto é mesmo assim, os treinadores nunca têm tempo, mas a verdade é que, quer eu, quer a minha equipa técnica, com a experiência, estamos cada vez mais capazes de fazer com que as ideias também sejam absorvidas de forma mais rápida. Ter um grupo que trabalha, que gosta de trabalhar e compreende a ideia, facilita muito. É o nosso caso. Quanto às competições que aí vêm, as taças, sinceramente, vai ser um momento para dar oportunidades aos jogadores, porque todos eles merecem. Vai haver muitas mexidas, certamente, porque o grupo demonstrou ser competente e, também, é uma forma de mostrar essa confiança aos jogadores. São jogos a eliminar, mas queremos ganhar e isso é negociável. Às vezes utilizo esta expressão, isto não é a Santa Casa da Misericórdia, não estamos aqui para fazer favores a ninguém. Mas vamos dar oportunidades, porque, de facto, eles merecem e porque eu acredito que, jogue quem jogar, podemos ganhar. Confio em todos os jogadores do plantel neste momento.

2026-10-11

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